Mais que uma simples cozinha, há alma em “Soul Kitchen”


Quando situações caricatas e cômicas andam juntas no mesmo filme, pode-se até desconfiar da qualidade cinematográfica. Mas, o longa-metragem “Soul Kitchen”, último filme do diretor Fatih Akin, provou que essa fórmula pode funcionar e trazer para o público uma deliciosa mistura de comédia com drama, que consegue envolver as pessoas (nem que seja de raiva do personagem principal).

Com uma história superficial, “Soul Kitchen” torna-se um contraditório de opiniões, mas que tenta diferenciar-se das outras comédias trazendo críticas às atitudes da pós-modernidade. O filme mostra a luta para que o personagem principal, Zinos, interpretado por Adam Bousdoukos, continue com o restaurante em meio às várias adversidades que o rodeiam. Entre os obstáculos estão à distância entre ele e a namorada, depois que ela vai morar em Xangai, as dificuldades financeiras e os conflitos com o irmão presidiário.

Por a maioria das cenas se passarem no restaurante, o mesmo transformou-se em um personagem importante para a história. O diretor Akin utiliza esse local como uma forma de explorar uma problemática da especulação imobiliária, que estava acontecendo não só em Hamburgo, mas no mundo todo. O longa-metragem retrata, justamente, essa busca dos empresários por áreas para construir empreendimentos, sem se preocupar com a música e a alma, o “soul” do lugar. Isso também acontece nos filmes “Os Boêmios”, do diretor Chris Columbus e “Um faz de conta que acontece”, de Adam Shankman.

Além dessa problemática, o filme mostra o preconceito que os alemães têm contra os imigrantes, duvidando da capacidade da pessoa. Quando Zinos reformula o cardápio do restaurante para atrair novos frequentados, os clientes antigos deixam de ir ao local. Porém, a aceitação dessa modernização veio dos jovens. Akin quis retratar essa negação do recente e do tradicional da sociedade alemã.

Essas temáticas, como situações de preconceito e encontros raciais, são encontradas nos filmes dirigidos por Akin. Em suas obras, ele busca na linguagem uma forma de provocar o público. No caso, quem assiste “Soul Kitchen” sente raiva de Thomas (Wotan Wilke Möhring), amigo de colégio de Zinos, que tenta tirar a qualquer custo o restaurante do colega.

Mesmo sendo uma comédia, como a maioria dos filmes, não poderia faltar um final feliz. Com muitas reviravoltas, Akin trouxe um desfecho positivo para “Soul Kitchen”. Apesar de Zinos ser um protagonista diferente dos padrões, por faltar-lhe beleza, as situações engraçadas que o rodeiam, como o próprio problema de coluna, fazem com que o personagem conquiste um carinho especial do público.

Mas, cuidado. Se pensa em assistir esse filme com pressa, fique calmo. Precisa prestar atenção nos detalhes e dar meia dúzia de credibilidade para perceber o quão divertido, inteligente e apaixonante é “Soul Kitchen”.

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